Você já deve ter ouvido falar de algumas características do autismo e se identificado com elas.
Algumas pessoas geralmente podem dizer: “a pessoa que não sabe conversar bem é autista”; “autistas não sabem olhar nos olhos”; “autistas têm alguns gostos estranhos”.
E você mesmo talvez já tenha afirmado para si: “se eu tenho foco e gosto muito de fazer alguma coisa, posso ser autista”; “se eu não gosto de determinado tipo de comida, devo ser autista”; “se eu não gosto de alguns tipos de barulho ou texturas, provavelmente sou autista”.
Mas será que isso é suficiente para dizer se alguém é autista ou não? Se o processo para o diagnóstico do autismo fosse apenas olhar para determinadas características soltas, sem um critério definido, muitas pessoas poderiam se autodiagnosticar, não é mesmo?
Mas não, não funciona dessa maneira.
O autismo é uma condição séria e que afeta o indivíduo ao longo da vida. Ele faz parte dos chamados transtornos do neurodesenvolvimento, que são caracterizados por alterações que surgem ao longo do desenvolvimento e afetam diferentes áreas do funcionamento do indivíduo.
Além disso, as suas características e sintomas não são categorizados a partir de impressões pessoais ou palpites. Fazem parte de anos de estudo e observação por pesquisadores que sistematizaram esses achados em literaturas específicas e padronizadas para o tema.
E quais são os critérios para diagnosticar alguém com autismo?
O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) elenca alguns critérios obrigatórios que vão compor o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista. Entre eles, estão os seguintes grupos de sintomas: A) déficits na comunicação e interação social e B) padrões repetitivos e restritos de comportamento, interesses ou atividades.
Esses sintomas precisam estar presentes em diferentes contextos, gerar prejuízo clinicamente significativo para o indivíduo, estar presentes desde o período inicial do desenvolvimento e não serem mais bem explicados por outras condições.
Grupo A: comunicação e interação social
No grupo A de sintomas, a pessoa precisa apresentar, necessariamente, prejuízos em:
1) Reciprocidade socioemocional
A reciprocidade socioemocional é a capacidade de iniciar, manter e responder a interações sociais na relação com os outros, ou seja, de forma mútua.
Por exemplo, uma pessoa com transtorno do espectro autista pode ter dificuldades em iniciar e responder a conversas, não perceber se é um momento adequado para iniciar interações, não oferecer suporte e apoio emocional quando o outro nitidamente precisa ou apresentar pouca reatividade emocional espontânea.
2) Comportamentos de comunicação não verbal durante interações sociais
Esses comportamentos apresentam a funcionalidade de compreender e transmitir sinais durante a interação social, mesmo quando não há a utilização de palavras.
Então, a pessoa pode apresentar, entre outras possibilidades, dificuldades para manter o contato visual durante o estabelecimento de trocas sociais, problemas na utilização de gestos adequados para determinados tipos de contexto e dificuldade na utilização ou até mesmo ausência de determinadas expressões faciais.
3) Desenvolver, manter e compreender relacionamentos
Como o próprio nome diz, esse indivíduo pode apresentar entraves para fazer novos amigos, estabelecer contatos ou desenvolver relações amorosas.
Além disso, pode apresentar dificuldades para administrar relacionamentos com outras pessoas, adaptar o comportamento a diferentes contextos sociais, perceber determinadas demandas das relações e lidar com conflitos.
Grupo B: comportamentos, interesses e atividades
O grupo B de sintomas exige o preenchimento de pelo menos dois dos sintomas apresentados:
1) Movimentos, uso de objetos ou fala repetitivos, também chamados de estereotipias
São percebidos em determinados comportamentos, como balançar repetidamente as mãos, mover o corpo para frente e para trás, alinhar, sacudir ou girar brinquedos, repetir falas de desenhos, repetir as mesmas palavras ou utilizar frases fixas em determinadas situações.
2) Padrão de funcionamento rígido
Esse padrão é observado na necessidade rígida de manter rotinas já conhecidas, na dificuldade para aceitar mudanças e na insistência em realizar as coisas da mesma maneira.
Pode envolver também a presença de padrões rígidos de pensamento, sofrimento diante de pequenas mudanças e preferência por manter determinados hábitos de forma bastante constante, inclusive na alimentação.
3) Interesse e foco extremamente intensos, fixos e restritos a determinados temas, atividades ou objetos
Somente alguns temas podem despertar um interesse muito intenso nesses indivíduos, que muitas vezes dedicam grande parte do tempo a eles.
A pessoa pode organizar boa parte da sua rotina em torno desses assuntos, falar repetidamente sobre eles e apresentar dificuldade para se envolver em outros temas ou atividades.
Alguns exemplos podem envolver dinossauros, astronomia, insetos, matemática, animais, pinguins, entre diversos outros assuntos.
4) Sensibilidade aguçada ou reduzida a determinados tipos de estímulos sensoriais
Por conta dessas alterações, a pessoa pode evitar alguns tipos de alimentos, locais com excesso de estímulos ou determinadas texturas, sons e cheiros.
Também pode buscar, de forma intensa e repetitiva, algumas sensações, como tocar objetos, cheirá-los, observar luzes ou realizar determinados movimentos.
Por que a avaliação profissional é importante?
E então, caro leitor, você conseguiu perceber a diferença entre questões comportamentais pontuais e a variedade de critérios envolvidos no diagnóstico do transtorno do espectro autista?
De início, imagino que você possa ter ficado um pouco assustado com toda a informação que recebeu, só que esse processo é importante para conseguir diferenciar o que, de fato, pode fazer parte de um quadro de autismo e o que pode ser apenas uma característica isolada.
Além do mais, não é suficiente olhar para os sintomas e verificar sozinho se você preenche os requisitos ou não. Existem profissionais qualificados para realizar essa avaliação.
O neuropsicólogo pode se tornar uma peça importante nesse processo porque, além de investigar o histórico de desenvolvimento e os sinais e sintomas apresentados, pode utilizar diferentes testes, escalas, instrumentos e procedimentos clínicos para compreender o funcionamento cognitivo, comportamental e emocional daquela pessoa.
Isso também é importante porque determinadas características podem aparecer em outras condições ou até mesmo em pessoas que não possuem nenhum transtorno.
Dificuldade para conversar, incômodo com determinados sons, preferência por rotinas, timidez, interesses muito intensos ou dificuldade para olhar nos olhos, quando aparecem isoladamente, não permitem concluir que alguém possui autismo.
É justamente o conjunto das características, a forma como elas aparecem ao longo do desenvolvimento, a intensidade, os prejuízos gerados e a análise de outros possíveis fatores que ajudam o profissional a compreender aquele caso.
Características isoladas não fecham diagnóstico
Por isso, se você se identificou com algumas das características apresentadas neste texto, isso não significa, por si só, que você possui transtorno do espectro autista.
Mas, caso essas características estejam presentes desde o seu desenvolvimento e tragam dificuldades importantes para sua vida social, acadêmica, profissional ou familiar, procurar uma avaliação profissional pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo.
A avaliação neuropsicológica pode fazer parte desse processo, contribuindo para uma compreensão mais ampla das dificuldades, potencialidades e características do indivíduo.
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